sábado, 21 de novembro de 2009

Ausência constante

A ausência dele era uma das presenças constantes. Ela acordava cedo, trabalhava muito, suava pra esquecer, corria pra apagar, enchia a cabeça. Mas a ausência a acompanhava. Hoje, pegou uma mala verde e encheu de roupas limpas. Decidiu ir para longe antes mesmo que pudesse ter certeza que aquilo não era uma boa ideia. Dentro do carro, pegou o telefone para deixar uma última mensagem para quando a ausência aparecesse. E aconteceu. Daquelas coincidências que, ela sabia, prendem a criatura numa maldição sem nome e transforma as manhãs solitárias em pesos ainda mais difíceis de carregar. E, com uma voz boba, um tom inseguro e nada que pudesse fazê-la mudar de planos. Mas mudou. Esqueceu o que estava fazendo dentro do carro, o post-it grudado no computador "acabou", esqueceu a motivação e acordou sozinha de novo, para mais quanto tempo ela nao sabia. Ausência constante.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

The origin of love



Vi uma peça hoje e saí pensando em mil coisas. Conheci um trecho do filme "Hedwig" também, que é necessário ser visto para que o blablabla todo faça sentido. Eles contam da origem do amor, uma história que está nos Diálogos do Platão, mas que a música resume bem, além de ser estranha e meio brega - o que torna tudo melhor. É bonito, bem bonito. Pra quem acredita no amor. "Ai de mim", como disse a tal moça de Prometeu Acorrentado.
Antes do amor, existia um ser que era dois, mas como estávamos muito fortes, os deuses nos diminuíram pela metade e hoje sentimos essa dor de estar/ser incompletos. Eles sabem que sozinhos, somos fracos.
E o umbigo, a prova de tudo? Muitas ideias. Pra quem acredita no amor.




quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vai passar nessa avenida

Se este blog anda parado, a culpa é da nova vida. Muitos trabalhos e poucos acontecimentos. Os sentimentos são os mesmos, melancolia às vezes, risadas sem sentido umas outras, inércia dominante. A vida não acontece dentro destas quatro paredes que, as 0h07 de uma terça-feira, ainda me impelem a escrever. Escreva. Leia. Revise. A vida pode esperar. Lá fora o dia não passa, os pássaros não voam e os ipês que eu tanto gostei ainda não vão florescer. Quem sabe sábado, ou quem sabe semana que vem. Aqui dentro, a vida é só uma mentira enquadrada nos manuais.

domingo, 20 de setembro de 2009

Come on home


Embora meu amor viva em um lugar onde eu não possa estar agora, eu descobri que gosto de viver sozinha, gosto da vida com esta solidão dominical, e estou exatamente onde queria estar. So you. Isso acaba comigo e faz eu me sentir ferida como nunca. Eu gosto de me sentir no limite. Gosto de estar insatisfeita, eu preciso de sempre mais. Então, por favor, volte pra casa. Você sabe que está onde quer estar. Estamos correndo atrás de tudo o que quisemos, não é? E eu o substituo. Facilmente, pateticamente. Eu flerto com qualquer um que estiver no meu caminho. Gosto de viver sozinha. Venha pra casa. Eu precisei de você ainda hoje e você (não?) estava perto. É melhor não esquecermos o quanto somos fortes, so bloody strong. Estamos onde sempre quisemos, mesmo estamos longe. Eu não posso esquecer isso. Embora você esteja inalcansável.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Adeus você

Escreveu meu amigo Marcos:
Separar muitas vezes é o melhor modo de se manter um pouco de dignidade. Você tem que deixar ir embora porque de qualquer jeito vai dar errado. É o que o carinha faz no filme. É o que a gente tem que fazer na vida. Tem que deixar ir embora o que te faz mal. Cortar totalmente. Assim como se corta o McDonalds da dieta quando o colesterol está alto demais e prestes a nos fazer explodir.
Uma banda que eu amo também já disse isso.
Mas tem gente que não aprende mesmo, né?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Prognóstico

Decidi te tratar como uma doença contagiosa. Quanto mais eu falo de você, mas você se espalha pelo meu corpo e toma conta das minhas funções vitais. Decidi ir ao médico pedir algo que anule sua influência sobre minha sanidade. Decidi que extinguiria qualquer mancha causada pela sua doença, qualquer memória física que tenha sobrado que você já foi. Decidi acabar com as prazerosas alucinações. Que viveria bem mesmo se você fosse maligno e mesmo que tivesse que escrever coisas só para me convencer que sem você a vida ainda é divertida e brilhante. O tratamento não vai ser doloroso. Talvez eu precise mudar a cor dos meus cabelos ou tomar algumas doses extras de tequila três vezes por semana. Tudo vai depender da evolução do meu quadro clínico. Ou talvez tudo melhore com só um telefonema.

sábado, 15 de agosto de 2009

Tudo como sempre



Ligou pra ela numa noite qualquer e confessou o que todos sabiam. Não tinha acabado. Nada mudou na sua vida, não refez os planos nem imaginou que a felicidade poderia ter voltado. Era um desses momentos em que a vida pode mudar radicalmente. Não é um dia especial, não é um dia de arco-íris, nada é diferente. O grande dia nunca é especialmente anunciado. A vida que não aconteceu era iluminada. Um casal de velhinhos, uma fotografia na parede, filhos correndo pela casa atrás dos cachorros, filmes no fim do domingo, histórias inspiradas neles, músicas dentro do carro, telefonemas sem sentido, almoços intermináveis. Ele sempre correndo, ela sempre esperando. O futuro seria perfeitamente defeituoso. Mas ele ligou pra ela naquela noite qualquer e assumiu que só com ela se sentia bem, que ainda estava perto, que sentia muito. Duas horas depois, voltou para a sua vida como se fosse fácil escolher o comum, viver o medíocre. Voltou para sua vida mais ou menos e achou óquei. Despedir-se nunca foi tarefa difícil para ele, até ali. Por um momento... Não. Não sabia que aquele era o momento, então virou as costas e foi viver os últimos 35 anos da sua vida longa e insosa. Nunca soube o que houve com ela exatamente, mas há uns anos lhe contaram que ela estava voltando de uma longa viagem e dizem que não tinha envelhecido um ano sequer.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cuide de você



(Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam ridículas se não fossem cartas de amor. Ou desamor.)


Sophie,
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a “quarta”. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as “outras”, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e “generoso”, se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu “desassossego” se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as “outras”. E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide de você.

X



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Atestado


Uma tendinite me impede de dizer tudo o que eu queria.
Ou seria uma amidalite?
A gastrite não é, dessa vez. Nem a enxaqueca.
Bem, dessa vez não posso falar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Migalhas sobre a mesa

Tem umas coisas que se aprende na vida sem saber quando nem de que jeito. Como o peso que devemos usar nas mãos para espantar as migalhas do bolo sobre a mesa sem manchar a toalha nova da mãe. É uma arte, um dom de pessoas delicadas que, muitas vezes, não sabem que o são, mas são, de fato. Tem outras coisas na vida, que por mais simples que sejam, são impossíveis de ser aprendidas, mesmo que treinadas, mesmo que com muitas tentativas. Não é privilégio dos delicados, nem dos bem-nascidos. Tem coisas impossíveis. Você sabe o que, não precisamos de exemplos, não é? Ou você já aprendeu isso também?